O TRÁGICO 13 DE AGOSTO

  • Dom, 17 de Agosto de 2014 15:18
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    A morte do líder e o legado do Estadista.

    MEU DEPOIMENTO: EDUARDO, SEU AVÔ E EU - Nos últimos anos, tive uma convivência intensa com Eduardo Campos. Ele me convidou, como governador, para um debate acadêmico sobre “Os movimentos precursores da República em Pernambuco", dos quais ele muito se orgulhava. Senti que ficou surpreendido com o meu entrosamento com o tema, sendo eu federalista e apaixonada pela história de Pernambuco". E não era para menos.

    Eu era muito ligada ao seu avô, Miguel Arraes, que revolucionou Pernambuco no final dos anos 50 e início dos 60. Escrevi uma longa tese sobre a elite açucareira e os movimentos camponeses - em especial sobre uma “nova forma de fazer política”, expressão tão cara a Marina e Eduardo, e que começou com Arraes na prefeitura de Recife. O movimento incendiou o coração dos artistas e intelectuais brasileiros em torno de uma experiência de revolução cultural e de inclusão social que o Brasil jamais havia conhecido antes - nem depois da Frente Popular de Pernambuco e de Recife.

     

    AS VIRTUDES POLÍTICAS E ADMINISTRATIVAS - Em sucessivos encontros que tivemos, observei de perto, com crescente admiração, as virtudes cívicas, pessoais e políticas de Eduardo Campos. Sua presença irradiava uma aura de bondade e de calor humano, temperados pelo permanente bom humor e alegria. Ele era um diamante raro, um ser iluminado que respirava a política como razão de viver. Como político, era carismático, empolgava os que o cercavam, inspirava confiança e sabia se fazer ouvir. Era também pragmático, brilhante negociador. E programático, gestor experiente que acreditava no planejamento dos objetivos a atingir.

    Como governador, fez questão de levar-me à reunião do Conselho de Segurança que se reunia mensalmente, com ampla representação, e acompanhava pessoalmente os indicadores e as metas a serem alcançados. O Governador, pasmem, participava da reunião de gestão. Estava lá!

    A marca registrada de Eduardo era a capacidade de ouvir as forças políticas - e de conversar com o povo. Procurava sempre encontrar os meios de convencimento para fazer o que parecia impossível, como mudar práticas e vícios que atrapalhavam a administração pública. O exemplo que deu foi o da rede hospitalar de Pernambuco, com graves distorções que ninguém queria ou conseguia corrigir. Em outra conversa, confessou-me que não se sentia atraído pelas viagens de lazer nos fins de semana, tão do agrado da classe política.

    “O que mais me dá prazer aos domingos é passear com meu filho, de bicicleta, pelas ruas, e ir conversando, aqui e ali, com as pessoas que encontro no meu caminho”.

    Fazer política, como lembrou sua mulher Renata, era para ele “um hobby”.

     

    Coragem para mudar: as impressões digitais do avô Arraes - Hábito sertanejo da conversa espontânea e natural, ele certamente aprendeu com o avô, Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco.

    Arraes foi também um político ousado, um homem de coragem. Como governador, enfrentou o mais perigoso e difícil dos problemas: incorporar o trabalhador rural à vida política e econômica do estado.

    Ele foi também o único dos grandes políticos da geração de 1964 que não abandonou suas funções quando os militares tomaram o poder, pagando o preço da prisão em Fernando de Noronha, e correndo sério risco de vida.  Quando vi o bordão de Eduardo Campos e de Marina Silva nestas eleições, “coragem para mudar”, pensei logo que havia ali a impressão digital de seu avô e mestre, que o ensinou, desde muito jovem, a administrar Pernambuco, a entender a linguagem do povo, mas também a romper paradigmas, reformar as instituições, governar para a maioria, com intensa participação popular.

    A economia estagnada exige mais ousadia:
    Em início de dezembro de 2012, fui a Pernambuco para um almoço com o governador, com um grupo de deputados da UNALE (União Nacional de Legislativos e Legisladores Estaduais). Eu e o deputado Beto Albuquerque ouvimos dele um desabafo que prenunciava o rompimento próximo com o Governo do qual tinha sido aliado fiel e de primeira hora.

    Campos se queixava dos rumos seguidos pela política econômica do governo Dilma, apesar de sua insistência e vontade de ajudar. Observou que a presidenta tinha uma incapacidade de dialogar, tanto com os empresários quanto com a classe política. “Ela sabe tudo, e não ouve ninguém”. Comentou também que “o excesso de centralização vem sufocando o Brasil”, partilhando conosco a ideia de um novo pacto federativo.

    Em seguida, veio o desabafo: "A economia brasileira perdeu o rumo e o destino da campanha presidencial de 2014 vai ser decidido em 2013. Se o governo não entender a necessidade urgente de mudar a política econômica, vou ter que seguir  outro caminho. Em 2014, será tarde demais", disse ele. Comentou ainda que havia fixado um prazo máximo de tolerância e de capacidade de esperar: março de 2013.

    Em março de 2013, assisto na televisão ao pronunciamento de Eduardo Campos, pedindo providências públicas à política econômica, tão equivocada quanto improvisada, deixando o país à deriva. Pensei comigo mesma: ele é um líder que atua com firmeza e extrema precisão, pensando no Brasil a longo prazo. E cumpre rigorosamente os seus próprios prazos.

     

    O líder partidário com visão de futuro – Eduardo Campos revelou-se também um exímio organizador partidário. Seu partido, o PSB, embora discreto, tinha antigas raízes na tradição política e intelectual brasileira, mas sob seu comando, saiu dos bastidores e cresceu, projetando-se nacionalmente, tendo como centro principal o Nordeste. Esta projeção regional foi surpreendente, tendo em vista o isolamento político da região, e sua submissão secular ao governo central em provimento de cargos e recursos públicos.

    Outro gesto de ousadia foi comandar a ruptura e o desligamento do governo Dilma, inclusive de cargos e recursos, e ter conseguido contornar as difíceis arestas dentro do partido, tanto no enfrentamento com os irmãos Cyro e Cid Gomes, como com o governo federal - e com suas próprias bases internas.
    O último teste de competência foi a aliança fulminante com Marina Silva, que adere ao PSB depois de ver fracassadas as suas intenções de criar o Partido da Rede. Essa difícil aliança acabou sendo plenamente vitoriosa, graças à habilidade e organização interna de Eduardo Campos que, em nenhum momento, atritou-se com sua, afinal, candidata a vice-presidente.  E havia razões de atrito, visto que o grupo político de Marina havia apenas temporariamente aderido à estrutura partidária.

    A despeito das aparências, as bases de construção do acordo parecem tão sólidas que tudo indica que a aliança sobreviveu à morte de Eduardo e que Marina Silva poderá, sim, vir a ser a candidata a presidente que Eduardo Campos deixou como seu principal legado.
    No entanto, é importante notar que a convergência de propósitos se criou em torno da “estratégia de Terceira Via” criada por Marina, em 2010, buscando conciliar o legado de Fernando Henrique, combatendo a inflação, com o legado de Lula, promovendo a inclusão social. Tal estratégia se repete com Eduardo nessas eleições de 2014, com as mesmas características, sendo que  a proposta de Marina indica a Terceira Via como caminho à sustentabilidade, enquanto a de Eduardo Campos enfatiza mais o desenvolvimento com inovação  e a reindustrialização.

    De fato, como Ministro da Ciência e da Tecnologia na quota do PSB, Eduardo Campos demonstrou ter uma tremenda visão de futuro ao exaltar a inovação como o compromisso essencial ao crescimento da indústria brasileira, entrosando-a com a sociedade do conhecimento. Mais do que isso, levou esta visão para seu estado de Pernambuco, entronizando-o com a verdadeira modernidade e rompendo com a prática arraigada de aceitar o Nordeste como periferia, como eterno segundo escalão da política brasileira.

    Sua morte, no apogeu de sua vida, deixa um grande vazio político, mas sua memória deixa um grande legado. O maior de todos pode ser resumido por sua última e inspirada mensagem: “não podemos desistir do Brasil”. Demonstrando que o PSB assimilou o princípio da sustentabilidade, continuou: “dele depende o futuro dos nossos filhos e das próximas gerações”.

    Sua rebeldia, junto com Marina, contra as práticas da velha política e a crítica severa contra uma política que paralisou o crescimento, desindustrializou o Brasil.
Minha mensagem de pesar à família, Renata, Ana e seus cinco filhos.

    Choro o diamante perdido.
    Aspásia Camargo

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