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Rio: perto do fim dos lixões. Longe de recuperar-se dos danos

  • Ter, 07 de Maio de 2013 20:17
  • Audiência pública da Comissão de Saneamento mostrou que os aterros do estado não estão tratando o seu chorume.

    Ao contrário da maioria dos estados brasileiros, tudo indica que o Rio de Janeiro vai conseguir fechar seus lixões e substituí-los por aterros sanitários, até agosto de 2014, conforme determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que vigora desde 2010. No entanto, a audiência pública realizada pela Comissão de Saneamento Ambiental da Assembleia Legislativa mostrou que as iniciativas adotadas precisam se enquadrar nas normas especificadas pela lei federal. E dentre os problemas apontados, uma questão soou mais alta do que as demais: o que fazer com o chorume gerado nos aterros sanitários? Atualmente, há uma concentração desse material tóxico na Estação de Tratamento de Esgoto de Icaraí, em Niterói, que está processando o chorume de grandes aterros do estado, incluindo o de Seropédica, que recebe nove toneladas de lixo diárias só da cidade do Rio de Janeiro.

    "Este é um problema gravíssimo. Não existe tratamento de chorume em Seropédica, e em vários aterros de outros municípios. Estão todos jogando o chorume na ETE de Icaraí. Essa carga de toxidade sai do emissário de Niterói e vai toda parar num só lugar, na Baía de Guanabara. Fora os percursos irracionais: são dezenas de quilômetros para transportar o lixo do Rio à Seropédica e depois o chorume tem ainda que ir até Niterói. Precisamos de uma solução", disse Aspásia, que recebeu o apoio do secretário de Meio Ambiente de Niterói, Daniel Marques.

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    Aspásia recebeu autoridades do governo estadual e das prefeituras do Rio e de Niterói

     

     A deputada propôs a criação de uma Câmara Técnica para apontar soluções tecnológicas mais adequadas e com melhor custo-benefício. "Temos que reunir os melhores pesquisadores e especialistas para discutir soluções em tecnologia de ponta para o processamento do lixo no Rio. É hora de entrar no século XXI. Existem diversas modalidades de tecnologia e as que mais me interessam são aquelas que atendem necessidades localizadas, as quais o sistema tradicional de destinação final do lixo, que é amplo e uniforme, não consegue atender", disse ela.

    Além dos problemas ambientais e de logística apontados pela parlamentar, o envio do chorume para a ETE de Icaraí denuncia o descumprimento do contrato de concessão. Ao receber a operação de um aterro sanitário, a concessionária deve construir uma Estação de Tratamento de Chorume, além de uma Central de Triagem de Resíduos e um sistema de reaproveitamento de gás como energia.

    Segundo o representante da Comlurb, José Penido, isso acontece porque o tratamento do chorume é muito caro, chegando a R$40 por metro cúbico. O aterro de Seropédica produz, diariamente, mil metros cúbicos; e o de Gramacho, mesmo desativado, dois mil. Ele disse ainda que há a previsão de um contrato entre a empresa Ciclus Ambiental, que opera Seropédica, e a Cedae, para que o chorume do aterro seja levado para a Estação de Tratamento de Esgoto de Alegria, na Zona Norte do Rio.

    Atualmente, o Rio de Janeiro conta com o programa Lixão Zero, que está subordinado ao chamado Pacto pelo Saneamento, do Governo do Estado. O representante da Secretaria Estadual do Ambiente, Luiz Firmino, explicou que os órgãos responsáveis estão agindo com rigor no fechamento dos lixões, às vezes, até com a presença da polícia. No entanto, os especialistas presentes questionaram como vão os processos de remediação de tais áreas, assim como o apoio aos catadores que viviam da separação daquele material. Segundo Firmino, os recursos do programa contemplam tais preocupações. Já foram investidos cerca de R$168 milhões.

    Mas a classe dos catadores de materiais recicláveis, representada na audiência, demonstrou uma clara dificuldade de reinserção no mercado de trabalho, pelo menos, com rendas equivalentes ao que a vida no lixo pode proporcionar – um catador de Gramacho chegava a tirar R$2 mil por mês.

     

    Coleta seletiva e reciclagem

    A coleta seletiva e a reciclagem foram ainda pontos centrais do debate comandado pela deputada Aspásia Camargo, que chamou atenção para a necessidade de simplificação da separação dos resíduos pela população, que deveria lidar apenas com os conceitos de lixo seco e úmido. Para ela, é necessário, no entanto, que as próprias instituições governamentais reciclem suas filosofias, visto que ainda não há uma meta efetiva de diminuição do volume de lixo gerado, como propôs o engenheiro Adacto Otoni. Assim, as dimensões do problema da destinação dos resíduos seriam muito menores. "Os governos deveriam desestimular o consumo, em vez de baixar impostos para que as pessoas comprem mais. Os aterros sanitários deveriam ser a última coisa a ser discutida", sugeriu ele.

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    Maria José: coordena uma incubadora de cooperativas de catadores na Coppe, UFRJ

     

    Um dos depoimentos que chamaram atenção foi o de Maria José, que coordena uma incubadora de catadores na Coppe, unidade de pesquisa em engenharia e tecnologia da UFRJ. Em sua opinião, a população está inclinada a separar seu lixo. "Eu já vi madame levar saco de resíduos separados para a cooperativa. Agora, de que adianta eu lavar a minha caixinha de extrato de tomate e colocá-la numa sacola separada se a Comlurb vai lá e junta tudo?", questionou.

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