• PDF
  • Imprimir

Engarrafamento de lixo

  • Dom, 19 de Maio de 2013 09:33
  • Vistoria da Comissão de Saneamento no aterro de Seropédica mostrou irracionalidades de um sistema que não separa o lixo e enche as ruas do Rio de caminhões e Niterói de chorume.

     

    No último dia 17 de maio, sexta-feira, a deputada Aspásia Camargo, presidente da Comissão de Saneamento da Alerj, realizou uma vistoria de mais de quatro horas e com muita chuva na Central de Tratamento de Resíduos de Seropédica. Para ela, a visita denunciou algumas distorções graves no sistema de destinação final de resíduos sólidos no estado: há um fluxo intenso de carretas para transportar o lixo em gigantescos volumes, uma consequência do índice de coleta seletiva próximo de zero. E são percorridas grandes distâncias tanto para levar os dejetos à CTR, quanto para retirar o chorume de lá. Para tal, tem grande contribuição a ineficiência da Cedae, pois, sem troncos de coleta e Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) em distâncias mais acessíveis, a CTR é obrigada a enviar 10 caminhões de chorume por dia para a cidade de Niterói e cinco para a Estação de Alegria, no Caju, que é igualmente distante.

    alt

    Aspásia colhe dados com Priscila Zidan, Superintendente da Ciclus, que opera o aterro.

    “O chorume tem que ser diluído em grandes quantidades de esgoto e a Cedae não dispõe nem de rede de coleta e nem de sistema de tratamento suficientes fazer o processamento, como fazem São Paulo e boa parte do mundo. Esses caminhões que já andam 100 km para levar toneladas de lixo a Seropédica, tem que andar mais 100 para retirar a água tóxica de lá. É irracional”, disse a parlamentar. Lembrando que a ETE de Icaraí é gerida pela empresa Águas de Niterói.

    Aspásia enfatizou que existem ETEs da Cedae que estão mais perto, porém não funcionam plenamente, como Sarapuí, um alto investimento do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) que virou obra morta.  Segundo Priscila Zidan, Superintendente de Operações da empresa Ciclus, que opera a CTR de Seropédica, o contrato de empresa prevê a construção de uma ETE em Seropédica, uma obra que fatalmente seria inutilizada, pois a região sequer dispõe de rede de coleta de esgoto.

    alt

    Montanha de lixo já chega a 35 metros

    Recentemente, Aspásia promoveu, na Alerj, uma audiência pública para acompanhar o processo de encerramento dos lixões no estado do Rio de Janeiro até 2014, conforme determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, promulgada em 2010. O Rio está entre os poucos estados que vão cumprir os prazos, mas mostra muitas dificuldades nessa transição do despejo irregular para a destinação dos resíduos em aterros sanitários.

    “É louvável a vontade política do Governo do Estado em encerrar os lixões. Mas não basta a vontade ou a lei. É necessário dispor de instrumentos para tornar essa transição possível”, frisou Aspásia, mencionando a urgência dos municípios implementarem coleta seletiva. O fluxo de caminhões entrando e saindo do aterro foi uma das cenas mais impressionantes: lixo orgânico, reciclável, industriais não perigosos, entulhos da construção civil, poda, lodo, entre outros, chegam misturados e são aterrados no mesmo lugar. A deputada reuniu uma grande quantidade de dados e se prepara para uma série de requerimentos de informações à prefeitura e ao Governo do Estado.

    Chorume

    A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece o encerramento dos lixões em todo o país até agosto de 2014, assim como prevê a construção de aterros sanitários. Se antes o chorume gerado pelo despejo irregular ia parar diretamente nos corpos hídricos, a partir da lei federal, os contratos das concessionárias que irão operar os aterros devem incluir a construção de Estações de Tratamento de Chorume. No entanto, a implantação dessas estruturas, além de cara, deve ser gradual (conforme o lixo acumulado vá gerando volumes consideráveis de chorume). A da Central de Tratamento de Resíduos de Seropédica, por exemplo, vai começar a funcionar plenamente em maio de 2014, depois de um investimento de R$ 30 milhões.

    alt

    Lagoas de chorume da CTR de Seropédica

    Uma alternativa adotada em boa parte do mundo, inclusive em São Paulo, é a diluição do chorume em grandes quantidades de esgoto (o padrão é 100m³ para  1m³). É por isso que, para Priscila Zidan, o problema da destinação final do chorume no estado do Rio está apenas começando. “Como será esse processo aqui, considerando a grande quantidade de aterros menores que estão sendo construídos e que vão passar a gerar chorume, se as ETEs da Cedae não têm capacidade para o processamento?”, questionou.

    Ela explicou que, atualmente, a CTR recebe, por dia, 8,5 mil toneladas de lixo do Rio, 120 de Itaguaí, 160 de Mangaratiba e 200 toneladas de Angra dos Reis. Isso gera 450m³ de chorume diariamente.  Desses, cerca de 100m³  (cinco caminhões) vão para a Estação de Alegria, no Caju, que é da Cedae. Mas o resto segue para a ETE de Icaraí e é lançado, depois, na Baía de Guanabara. Assim será até setembro de 2013, quando o volume será todo transportado para Alegria.

    CTR de Seropédica

    A Central de Tratamento de Resíduos de Seropédica é a segunda maior do Brasil em recebimento de lixo e a primeira em tamanho. Inaugurada em abril de 2011, seus 2,2 milhões de metros quadrados equivalem a 266 campos de futebol, com capacidade para 10 mil toneladas de lixo por dia, pré-tratamento de chorume e sistema de aproveitamento de gás e geração de energia. O despejo é feito em camadas emantadas, que formam uma montanha cuja altura máxima poderá atingir 100 metros.

    Atualmente, o montante de lixo tem altura de 35 metros. Por se tratar de um aterro sanitário, não é permitida a catação. Por isso que toneladas de matéria reciclável são enterradas junto com os resíduos orgânicos. A vida útil do aterro é de 15 anos.

    Engarrafamento de lixo